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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

ULISSES NO PAÍS DAS MARAVELHAS

Ulisses no País das Maravelhas - Egidio Trambaiolli Neto - Editora Uirapuru 
(trecho para apreciação)

https://likestore.com.br/store/showcase/editorauirapuru

Aprecie com moderação... Deixe que a bagunça eu faço!


CAPÍTULO I

A MANUTENÇÃO

     Parecia mais um fim de dia normal na vida de Ulisses, o técnico em máquinas domésticas de vinte e poucos anos que carregava sua pesada mala de ferramentas escada acima. Pela terceira vez naquela semana, ele teria de visitar a casa daquela senhora misteriosa que usava um coque de cabelos grisalhos no alto da cabeça e possuía ancas enormes que, em geral, se deslocavam no ritmo da máquina de lavar roupas que havia pifado uma vez mais.
    Àquelas alturas, na cabeça de Ulisses, passava apenas o pensamento de que já era tarde e o horário de bater o cartão na Oficina Coelho, do Senhor Carlos Coelho, mais conhecido pelo sobrenome, estava próximo. Mas aquela chamada de última hora poderia obrigá-lo a ficar além da jornada daquele dia e ouvir a reclamação do Seu Coelho de que ele estava fazendo corpo mole para receber hora extra por seus préstimos. Mas, fazer o quê? Era ouvir o patrão resmungando pelas horas adicionais ou por ele não ter atendido à cliente que mais lhe rendia lucros.
    Ulisses não sabia o nome daquela mulher, aliás, acho que ninguém ao certo sabia, ele apenas recebia os telefonemas reclamando da geladeira, do fogão e, principalmente, da máquina de lavar roupas que enguiçava constantemente. Cada vez que atendia ao telefone e ouvia uma voz rouca reclamando de seus velhos eletrodomésticos, Ulisses já sabia que se tratava da cliente mais estranha que a oficina autorizada já tivera em sua carteira. Para variar, a mulher ligava resmungando dos velhos equipamentos que tinham mais de cinquenta anos, mas que ela insistia em continuar utilizando.
    Muitas vezes o reparo saía mais caro do que um aparelho novo, mas aquela senhora não queria nem ouvir falar a respeito, insistia nas velharias e se irritava quando alguém mencionava que aquele aparelho não tinha mais reparo. Ciente da teimosia de sua cliente, Ulisses sequer cogitava a aposentadoria do maquinário e arrumava aquelas peças de museu.
     No fundo, o rapaz já estava acostumado com as esquisitices da mulher que não aceitava outro técnico para consertar seus aparelhos. No fundo, ele sabia que ela gostava de seus préstimos e isso era o que importava. A única coisa que perturbava Ulisses naquela casa era aquele gato sinistro que olhava insistentemente para ele toda vez que ia consertar algum eletrodoméstico. Contudo, naquele dia em especial, o gato tinha um quê maior de esquisitice e parecia satisfeito por ver com que dificuldade Ulisses tentava arrumar o aparelho, olhava aflito para o relógio e murmurava: É tarde, é tarde, é muito tarde...
   Ulisses olhou para o gato que parecia sorrir e revezava sua atenção entre o relógio e o reparo que o estava obrigando a mergulhar de cabeça no compartimento em que se lavava a roupa. O mais curioso era que a peça que deveria ser trocada, no fundo da máquina, parecia inalcançável. Ulisses não entendia como, mas parecia que seu braço não chegava ao parafuso do eixo principal, obrigando-o a entrar até a cintura na câmara de lavagem da máquina, forçando-o a tentar desenroscar um parafuso que, pelo tempo de uso, sem dúvida alguma já estava espanado.
  O gato permanecia olhando firme para Ulisses e viu quando seus pés já não tocavam no chão. Foi nesse instante que o riso no rosto do gato ficou evidente. O bicho pulou com as quatro patas no traseiro de Ulisses, empurrando-o ainda mais para dentro da máquina de lavar, que estranhamente passou a funcionar.   Assim, a água começou a entrar na câmara, levando Ulisses ao desespero. Era muita água! O motor girava, ora para a direita, ora para a esquerda, lembrando os movimentos das ancas de sua proprietária. De repente, as roupas começaram a cair como uma avalanche no interior da máquina de lavar. Ulisses agora media menos que um dedo polegar.
   Com o vai e vem do motor, Ulisses entrou por uma manga de uma camisa e saiu pela outra, mergulhou de cabeça pela perna de uma calça e saiu pela cintura, fechou os olhos e fez cara feia quando passou por dentro de uma cueca e se enrolou em uma grossa blusa de lã verde-bandeira. Por mais que tentasse, Ulisses não conseguia subir à tona, era jogado para lá e para cá.
   O rapaz já estava ficando roxo por prender sua respiração, até que ele avistou um ralo que parecia ter vida própria, que gesticulava e até tentava lhe falar algo. Ulisses sentia-se atordoado, achava que estava tendo alucinações e ficava cada vez mais roxo, até que não aguentou mais e tentou buscar o ar onde não existia: em meio a toda aquela água que o mantinha submerso.
– Fique calmo! – disse o ralo – Respire fundo!
Sem entender o que estava acontecendo, exaurido de suas forças, Ulisses foi decantando e pousando no fundo da câmara de lavagem que agora não mais batia as roupas, bem diante do ralo.
– Muito bem! – comentou o ralo para Ulisses que não entendia o que estava acontecendo – Agora fique sentado e espere!
– Esperar o quê?
– Ah, você não sabe? Tente adivinhar!
– Isso é ridículo! Estou tendo alucinações! Respirando embaixo da água, tal qual um peixe e falando com a tampa de um ralo!
– Ei, calma lá! Eu não sou uma tampa de ralo qualquer!
– Não? Então o que você é? – rebateu Ulisses com rispidez – A rainha da Inglaterra?
O ralo ergueu uma das sobrancelhas, empinou o nariz e disse:
– Eu sou o Senhor Tampa de Ralo!
– Ridículo!
– Ah é? Eu sou aquele que permite que qualquer um passe para o outro lado!
– Balela!
– Muito bem, sabichão! – comentou a tampa cruzando seus mirrados braços – Eu quero ver como você vai se virar durante a centrifugação!
– Você está brincando, não é?
– Não! Você vai ficar sequinho!
Ulisses tentou abrir o ralo, torcendo a tampa como toda a força, até que ele reclamou:
– Ei! Você está me machucando!
– Eu preciso sair daqui antes que eu vire um selo de correio de tão achatado que vou ficar!
– Calma lá! Você não consegue passar por dentro de mim desse tamanho! – disse o ralo.
– Mas eu preciso sair daqui!
A tampa do ralo aproveitou a oportunidade e lançou uma charada.
– De um inteiro sou metade, mas o meu dobro é um par. Quem sou eu? Diga sem titubear!
Ulisses tentou pensar em uma fração de segundos, se irritou e esbravejou:
– Isso não tem sentido! Se for a metade, o dobro é um inteiro e não um par!
– Resposta errada! – disse a tampa do ralo – Só mais uma chance!
Cada vez que Ulisses ouvia um clique do timer da máquina de lavar, sabia que o tempo de espera para a centrifugação estava indo embora, tinha consciência de que se não fizesse algo, logo seria espremido contra as paredes da máquina de lavar até explodir como um tomate maduro quando cai ao chão. O rapaz ficou pensativo, percebeu que naquela charada tinha alguma pegadinha e se pôs a maturar as informações recebidas.
– Metade de um é meio... Meio... Meia... Espere, um par de meias tem duas meias... Saquei! São as meias! – falou Ulisses todo orgulhoso. – Mas e daí?
– Use as meias, oras bolas! – disse a tampa do ralo com relativa arrogância.
– Mas essas meias são maiores do que eu! Como vou colocá-las?
O Senhor Tampa de Ralo grunhiu e falou com aspereza:
– Onde já se viu? As meias são para cheirar e não para vesti-las nesses pezinhos de Cinderela! Faça isso para iniciar sua Odisseia!
– Rá, rá, rá, muito engraçado! – resmungou Ulisses cruzando os braços – E, quer saber? Eu não vou cheirar essas meias imundas com aroma de chulé!
– Problema é seu! Não sou eu que quero sair daqui para fugir da centrifugação! Acho melhor você cheirar, caso contrário você vai ser espremido contra essas paredes até seus olhos saltarem das órbitas.
   Ulisses apanhou uma das meias mantendo os olhos fixos no Senhor Tampa de Ralo, querendo fulminá-lo, olhou com cara de nojo para um dos pés da meia, pegou-o com as pontas dos dedos, aproximou-o de modo relutante do nariz e cheirou.
– Que fedor de gorgonzola! – disse Ulisses ameaçando vomitar.
Sem que pudesse dizer mais uma palavra, Ulisses encolheu ainda mais, desta vez estava menor que a unha de um dedo mindinho. Com o tamanho apropriado para passar pelo ralo, mas ele ainda estava tampado.
– Você não deve bater bem da cabeça! Como é que você vai conseguir tirar a tampa que obstrui a saída? – perguntou a tampa do ralo.
   Preocupado com a dúvida plantada em sua cabeça pelo Senhor Tampa de Ralo, o rapaz começou a ficar aflito, tentou de todas as formas arrancar-lhe do ralo, mas não tinha forças suficientes para realizar tal façanha, contudo, um novo clique do timer mostrou que o tempo estava se acabando.
– Eu não consigo! O que eu faço? Se eu for comprimido desse tamanho, meus ossos vão se quebrar!
– Cheire a outra meia! Assim você vai crescer!
Imediatamente Ulisses pegou a outra meia do par, cheirou fundo e começou a crescer.
– Ei, se eu cheirar mais essa meia, com certeza eu sairei por cima da máquina de lavar! – exclamou o rapaz com otimismo.
– Não diga tolices! A máquina só funciona com a tampa abaixada!
– Eu vou forçar! Eu vou crescer até arrebentar a tampa! – retrucou.
– Bom, não diga que eu não o avisei! – falou a tampa do ralo com desdém.
  Ulisses se preparou e cheirou a meia o mais fundo possível, mas, por mais que ele cheirasse e crescesse, a tampa da máquina ficava ainda mais distante. Para piorar, Ulisses via o gato risonho acenando para ele sentado em cima da tampa da máquina de lavar, com aquele riso estúpido estampado na cara.
– Eu, puff, puff, não puff, puff, consigo!!!
– Bem que eu te avisei! – berrou a tampa do ralo que agora parecia mais distante ainda.
– Eu quero sair daqui! – gritou o rapaz.


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4 comentários:

  1. Simplesmente, fantástico!

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  2. Hilário! Esse livro deve ser a maior comédia.
    Vou comprar! kkkkkk
    Alessandro Jorge
    RJ

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  3. Tô mijando de rir... kkkkkkkk
    Cícero

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  4. A hipocrisia do Povo Brasileiro
    O que dizer de um povo que aceita políticos corruptos, que aceita propina, que em sua essência quer tirar vantagem de tudo e de todos. É vergonhoso ver que o brasileiro só se preocupa com o futebol, ou seja, o Brasil não é uma nação, mas sim um clube igual Corinthians, Flamengo, ou qualquer outro. Lamentável! Somos desprovidos de nacionalismo, de amor pelo que temos fazemos, deixamos nos levar por demagogos engravatados, anjos caídos e trogloditas com aura de heróis. Os brasileiros não têm identidade e, muitos, sequer têm idoneidade moral: diga com quem andas e eu direi quem és, portanto, os que se apoiam slogans do tipo: “rouba, mas faz”, endossam sua conivência e o teor nocivo de seu caráter. É uma pena, o brasileiro acha que política se resume em direita e esquerda, esquece de que há a opção “em frente”, mas para isso é preciso: Ordem e Progresso. É preciso Educação e Cultura.
    O brasileiro se vende e não se valoriza. É triste ouvir os poucos leitores que têm paixão por livros dizer: só leio literatura internacional, os autores brasileiros são muito ruins. Aí você pergunta: o que você já leu de livros brasileiros? A resposta muitas vezes remete aos livros adotados nas escolas, para o vestibular, livros escolhidos por professores para o estudo da evolução da literatura lusófona, produzidos, pelo menos, há mais de um século. É óbvio que esse tipo de leitor é preconceituoso e influenciado pelo modismo, embora haja uma parcela que não são assim. Mas esses leitores envoltos por essa cegueira, leem Alice no País das Maravilhas, mas não lê Ulisses no País das Maravelhas, o que é um desperdício, pois a releitura brasileira feita pelo renomado escritor Egidio Trambaiolli Neto é um primor! Uma obra repleta de bom-humor, com associações inteligentes, bem planejadas e uma profunda crítica social do hábito que esses brasileiros têm de aceitar e valorizar tudo que a mídia, a serviço dos gringos, empurra para o nosso apático consumo.
    Em resumo: esses leitores são patos e gansos engaiolados, sendo preparados para fornecer o foie gras, uma iguaria da culinária francesa que é feita com o fígado dessas aves, que ficam confinadas em gaiolas para não se mexerem e são alimentadas forçosamente por um funil para se tornarem obesas e o fígado ficar saturado de gordura. Aí, elas são abatidas para se retirar o fígado que a essas alturas tem doze vezes seu tamanho.
    Assim são os brasileiros, desperdiçam nossa literatura para se comportarem como patos idiotas, engolindo vampiros, bruxos, duendes, esquecendo do saci, da mula sem cabeça, do boitatá... Só que no lugar de retirarem seus fígados, eles retiram suas almas e os tornam zumbis sem identidade cultural.
    Acham que eu estou falando demais? Que estou generalizando? Então, respondam: o que é mais comemorado no Brasil, o dia do nosso folclore ou o Halloween?
    Eu não estou dizendo que não devemos conhecer a cultura e o folclore de outros países, mas querendo abrir os olhos para o que desperdiçamos o que temos de melhor.
    Profa. Mariana Lima

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